DECODE de Franco Palioff, por Jack Holmer

 

Decode

 

Nesta segunda década do século XXI, as obras deixaram de ser outputde uma mente para serem mediadoras entreinoutputs de ambientes orgânicos e/ou digitais. A internet das coisas conecta objetos antes inanimados em uma rede de informações complexas, e o artista cria filtros, funis, caminhos e remixa estas informações. A manipulação destas informações depende também da fonte ou em que parte da rede e da vida cotidiana o artista busca a base de sua poética. Em outros tempos, a religião e a igreja serviam de “tema” direcional para a Arte e com o desenrolar das culturas, os nichos que o artista se debruça, vão mudando de alvo. Independente do foco da poética, o artista sempre acaba fazendo um recorte da existência, sendo esta edição consciente pelas buscas e pesquisas ou até onde ele pode visualizar em seu radar de conexões.

Quando o Vaticano se expressa no Twitter, a obra de Franco “sente” o comunicar e começa a desenhar. O artista escreve o código de como àquela informação influenciará na sua trama poética, composta por layersde condicionais formais e estéticas, que transformam oinputsimbólico em performances concreto-espaciais diante do observador. O espaço expositivo local é conectado ao mundo informacional, deixa de ser isolado e é parte da fluidez do digital. A comunicação verbal escrita influência as possibilidades de evolução performática da obra, fazendo com que a obra apresente soluções estéticas diferenciadas dependendo doinputque recebe.

Franco ensina suas máquinas, mostrando as imagens específicas do mundo. Em uma maquinização da história da beleza puritana, o artista mostra 300 imagens de “Virgens” (como as Madonas agrupadas por Umberto Eco) para a inteligência artificial, que aprende e reproduz sínteses das características estéticas comuns entre as imagens, isso toda vez que o Vaticano se expressa no Twitter.

Em contraponto, 300 imagens de sexo gay explícito também passam pelos filtros fluidos do aprendizado da máquina, que resultam em imagens reconhecíveis em síntese, mas compostas de abstrações orgânicas de corpos em posições sexuais, um reconhecimento não objetivo, mas em sua forma geral. As máquinas irão aprender o que a elas for ensinado e aqui a fonte das pesquisas poéticas e o direcionamento vindo da vivência do artista são declarados. Franco chama a atenção para a fonte das informações: elas podem ser produzidas por uma organização religiosa de conhecimento dogmático ou por um site que acompanha terremotos e produz conhecimento científico; podem ser de um influenciador digital que opina sem metodologia clara ou de horas rolando imagens do Instagram; a pós-verdade da rede agrupa por afinidade e não por metodologias lógicas argumentativas, basta ao usuário “escolher” em quem vai acreditar.

As imagens produzidas ao final dos inputs fazem parte do templo que as obras criam em seu conjunto. Nesse espaço, veneramos o híbrido entre o digital e o concreto, entre os diversos gêneros, o fim da possibilidade teórica e prática de um suposto “artificial”. Tudo é natural, matéria do mundo, manipulada ou bruta, sem distinção do fazer do homem, do tempo ou das condições ambientais. Neste templo veneramos uma natureza composta por objetos antes inanimados, duros por seus hábitos de estabilidade física, e que vão ganhando movimento, amolecendo, a partir do momento que os materiais inanimados viram vida biológica fluida, que na contemporaneidade cria fluxos inorgânicos de existência, seja em compostos de carbono ou em metal e correntes de elétrons.

Franco decodifica as informações exaladas de nosso tempo em reconhecidos comportamentos contemporâneos que não podem ser descritos em binômios nem em polaridades, eles são leques de possibilidades do existir, probabilidades de combinações formais ou o revelar do (o)culto maquínico.