A necessidade de se empreender arte em Curitiba.

FOTO NANI GOIS 02.02.2005

FOTO NANI GOIS 02.02.2005

 Esse é um texto difícil de começar. Então, é melhor ir direto ao ponto.
Curitiba, uma cidade com cenário artístico efervescente e consagrada nacionalmente no teatro, na música e na dança, carece de amparo público sério.
Não estou falando nem de prédios e museus – Curitiba tem ótimos – e nem de pessoas – por sorte Curitiba tem em seu quadro de funcionários pessoas incríveis, que no final, fazem toda a diferença – estou falando de um sistema de gestão pública da cultura e da arte, composta do diálogo contínuo entre o público e o governo, em estruturas que premiem as iniciativas artísticas de qualidade e não fiquem no meio do caminho da criação, qualquer que seja.
O que temos em Curitiba é um bando de gente danada de boa e talentosa, mas meio orfã de amparo, de meio, de recurso, o que inclina para o adágio: “se já são talentosos assim, imagine se tivessem ajuda de verdade…”.
Os espaços públicos de Curitiba são lindos. Mas monte uma exposição neles para você ver. Não tem tinta, não tem lâmpada, não tem pincel pra pintar com a tinta, não tem fio elétrico para ligar a lâmpada.
A lista continua. O Museu Oscar Niemeyer – MON, um dos mais importantes do Brasil, apresenta, dentre suas várias formas próprias de seleção de obras e artistas,  um tipo específico de seleção, a saber: o artista apresenta seu projeto, uma banca analisa e se cumprir os pré-requisitos, está dentro da programação. Um requisito porém prevê que o artista tem que arcar com todo o custo da exposição. Bem, não é preciso ser nenhum gênio para saber que esse é a curadoria tipo *Quem tem dinheiro entra, quem não tem fica de fora*, o qual se incluem na segunda parte da sentença 99,99% dos artistas nacionais. O resultado dessa curadoria são exposições decorativas (acho que acabei de inventar esse termo) que miram na venda e não na produção artística. Nada contra, só acho que essas exposições deveriam figurar na loja no museu e não dentro do museu. A parte interna é para a arte que indaga, propõe, comunica, responde, tolera, devaneia, grita, expõe, mas as vezes ou quase nunca… vende!

É claro que essa não é a única forma de seleção feita pelo MON, mas ainda assim não é só ela que nos suscita o raciocínio: Recentemente a Fundação Cultural de Curitiba, órgão ligado à prefeitura, emitiu uma tabela de preços para a utilização dos espaços públicos. A iniciativa é válida, já que é óbvia a intenção de organizar um pouco, colocando valores de auxílio, que são essenciais para a boa manutenção dos espaços culturais da cidade. No entanto a disparidade é gritante e mais uma vez barra na questão financeira. Artistas e produtores locais tiveram arrepios. Como cobrar o acesso de quem proporciona a maioria da atividade cultural da cidade?

Apreciar a arte e a cultura em Curitiba é lindo. Belos museus. Grandes artistas. Primorosos espetáculos. Mas quando se está nos bastidores se nota que a estrutura é frágil, montada sobre uma fundação duvidosa. A máquina está linda e lustrosa, mas quando de abre o capô, cadê o motor?

Por essas razões, a iniciativa privada ou coletiva de se empreender a arte é fundamental. Artistas em Curitiba devem ser recebidos com portas abertas e palcos também. Que eles não encontrem um muro de burocracias ou uma conta que não podem pagar. Ou pior, sacos para puxar ou panelas para se entrar. Coisas que o estado brasileiro não sabe fazer.

Então, a arte em Curitiba floresce nos bares, nos pequenos ateliês, na casa dos próprios artistas e em todo tipo de espaço que seja possível não se endividar só para fazer a arte acontecer.

Sendo assim, lembre-se: ao andar pela capital paranaense e se deparar com ARTE  sendo apresentada em lugar alternativos, não se espante! Você pode estar diante de algo de finíssima qualidade. Talvez até melhor do que consta na programação dos museus locais…